Por Jessy Oliveira
Você sabe o nome dele.
Sabe o que ele fez, em que cidade, quantas vezes, de que forma. Sabe porque a Netflix fez uma série, porque os podcasts repetiram cada detalhe, porque a internet transformou um assassino em personagem. Jeffrey Dahmer virou rosto de camiseta, filtro de Halloween, estética de terror. Um produto.
Mas eu tenho uma pergunta: você sabe o nome de Steven Hicks?
E de Konerak Sinthasomphone?
Se não sabe e a maioria não sabe este texto existe por causa disso.
Dezessete homens. Dezessete histórias que ninguém conta.
Entre 1978 e 1991, dezessete pessoas foram assassinadas por Jeffrey Dahmer. A maioria era jovem. A maioria era negra, latina ou asiática. A maioria vivia à margem não por escolha, mas porque o sistema os colocou ali. Eram pessoas que ninguém procurou com urgência quando desapareceram, e que o mundo só conheceu quando seus restos foram encontrados dentro de um apartamento em Milwaukee.
Não vou repetir aqui o que Dahmer fez com eles. Você já sabe. A mídia se encarregou de contar, recontar e monetizar cada detalhe do horror. O que a mídia não fez e o que eu pretendo fazer é contar quem eles eram antes de cruzarem o caminho dele.
Não como “vítima número três” ou “o garoto de catorze anos”. Como pessoas.
Steven Hicks — o garoto que chorou por um coelho

Steven Mark Hicks tinha dezoito anos em junho de 1978. Tinha acabado de se formar na Coventry High School, em Ohio, e estava indo de carona a um show de rock no Chippewa Lake Park. Vinte e cinco milhas de casa. Uma tarde de verão, sem camisa, com a liberdade de quem acabou de sair da escola e acha que o mundo inteiro está esperando por ele.
O pai de Steven, Richard, trabalhava com controle de qualidade. A mãe, Martha, cuidava da casa. Uma família comum, de classe média, que criou um filho descrito por todos como gentil e compassivo. Há uma história que o pai contava sobre ele: numa caçada, Steven atirou em um coelho e chorou ao perceber o que tinha feito.
Esse era o garoto que aceitou a carona.
Quando Steven não voltou pra casa naquela noite, os pais pensaram que ele tinha dormido na casa de um amigo. Depois de dias sem notícias, Richard Hicks contratou um detetive particular. Ofereceu dois mil e quinhentos dólares de recompensa por qualquer informação. Procurou durante treze anos.
A resposta veio em 1991, quando Dahmer foi preso e confessou tudo. Investigadores encontraram dentes e fragmentos de ossos de Steven enterrados nos fundos da casa onde ele foi morto.
A Coventry High School criou uma bolsa de estudos em nome de Steven Hicks para alunos de escolas técnicas. Os pais morreram sem jamais superar a perda — Martha em 2008, Richard em 2010.
Nenhuma série da Netflix mencionou a bolsa de estudos. Nenhum documentário contou que ele chorava por coelhos.
Konerak Sinthasomphone — o menino que fugiu e foi devolvido ao assassino

Konerak nasceu no Laos em 1976. Era o caçula de oito irmãos. Em 1979, quando tinha dois anos, sua família fugiu do regime comunista que ameaçava confiscar a fazenda de arroz do pai, Sounthone. Atravessaram o rio Mekong de canoa numa madrugada os pais drogaram as crianças com soníferos para que não chorassem e atraíssem a atenção dos soldados.
Passaram um ano num campo de refugiados na Tailândia antes de imigrarem para Milwaukee com a ajuda de um programa católico. Oito filhos, um apartamento, uma vida recomeçando do zero. Os irmãos mais velhos trabalhavam como soldadores e operários de linha de montagem. Konerak cresceu falando inglês e laociano.
Gostava de Lamborghinis. Desenhava as Tartarugas Ninja. Jogava futebol no Mitchell Park e assistia Tom e Jerry. Sonhava em ser engenheiro. Era calouro na Pulaski High School. Tinha catorze anos.
Em maio de 1991, Dahmer que estava em condicional por ter abusado sexualmente do irmão mais velho de Konerak, Somsack, três anos antes atraiu o garoto ao seu apartamento oferecendo dinheiro em troca de fotos. Dahmer não sabia que os dois eram irmãos.
O que aconteceu depois deveria ter sido a história de uma fuga. Konerak conseguiu sair do apartamento. Foi encontrado na rua por três vizinhas — Sandra Smith, Tina Spivey e Nicole Childress — nu, ferido, sangrando. As mulheres ligaram para a polícia.
A polícia chegou. Dahmer chegou logo depois. Explicou aos policiais que Konerak era seu namorado de dezenove anos, bêbado depois de uma briga de casal. Os policiais acreditaram nele. As vizinhas protestaram. Os policiais ignoraram. Devolveram Konerak ao apartamento de Dahmer.
Trinta minutos depois, Konerak estava morto.
No apartamento, a poucos metros de onde os policiais estiveram, o corpo de outra vítima — Tony Hughes — jazia no chão do quarto ao lado.
A família Sinthasomphone processou a cidade de Milwaukee e recebeu oitocentos e cinquenta mil dólares de indenização em 1995. Os dois policiais foram demitidos, recorreram e foram reintegrados com pagamento retroativo de cinquenta e cinco mil dólares cada.
Konerak está enterrado no cemitério Holy Cross, em Milwaukee. Ele tinha catorze anos, desenhava tartarugas ninja e queria ser engenheiro.
Errol Lindsey — o artista que tinha uma irmã que nunca parou de lutar

Errol Lindsey tinha dezenove anos. Era descrito pela família como criativo, gentil e dedicado. Um “filho de mamãe”, no melhor sentido. Fazia todo mundo ao redor rir. Trabalhava, ajudava em casa, sonhava com um futuro maior.
Quando morreu, Errol deixou uma filha que ainda não tinha nascido. Essa menina hoje é adulta e mãe.
A irmã de Errol, Rita Isbell, tornou-se uma das vozes mais conhecidas entre os familiares das vítimas. Durante o julgamento de Dahmer, Rita confrontou o assassino diretamente no tribunal, num momento que foi televisionado e que a Netflix reproduziu na série de 2022 sem pedir a permissão dela.
Rita soube da reprodução pela internet. Disse que assistir uma atriz imitando sua roupa, seu cabelo e seu desespero foi como reviver tudo de novo. Ninguém da produção a procurou antes.
Anthony Hughes — o homem surdo que todos amavam

Anthony Hughes tinha trinta e um anos, era surdo e se comunicava por linguagem de sinais e leitura labial. Era descrito como uma pessoa de sorriso fácil e personalidade magnética. Trabalhava como gerente no restaurante Bakers Square e tinha acabado de receber uma promoção.
No dia seguinte à sua morte, Anthony deveria visitar a mãe para celebrar a promoção. Ele nunca apareceu.
A Netflix dedicou um episódio inteiro a Anthony na série de 2022 um dos poucos momentos em que a produção realmente tentou humanizar uma vítima. Mas para a família, o estrago já estava feito: a morte do filho tinha sido transformada em entretenimento de streaming sem que ninguém perguntasse se eles queriam isso.
O que une essas histórias

Dezessete homens morreram. A maioria pertencia a comunidades que a sociedade americana já tratava como invisíveis — negros, latinos, asiáticos, imigrantes, homens gays, pessoas em situação de vulnerabilidade social. Quando desapareciam, a polícia não procurava com a mesma urgência que procuraria um garoto branco de classe média. Quando eram encontrados, viravam estatística.
E quando um assassino finalmente foi preso, a indústria do entretenimento fez exatamente o que a polícia já tinha feito: priorizou a história de quem destruiu essas vidas, não de quem as viveu.
A série da Netflix sobre Dahmer foi assistida por mais de cinquenta e seis milhões de domicílios. As famílias das vítimas não receberam um centavo. Não foram consultadas. E foram forçadas a reviver o pior momento de suas vidas através de atores que imitavam sua dor para uma audiência global.
Por que este blog existe
Eu escrevo ficção sombria. Meus livros falam de violência, de exploração midiática, de como a sociedade consome a dor alheia como entretenimento. Em A Voz das Vítimas, criei uma podcaster que transforma o sofrimento de uma mulher em conteúdo — e cobra por isso.
Mas o que a Ariadna faz na ficção, a indústria do true crime faz na vida real. Todo dia.
Este blog é o oposto disso. Não vou contar como o assassino matou. Vou contar quem eram as pessoas antes de se tornarem “vítimas”. Vou devolver nomes, rostos e histórias a quem foi reduzido a um número numa lista.
Porque Steven Hicks não era “a primeira vítima de Dahmer”. Era um garoto de dezoito anos que chorava por coelhos e estava indo a um show de rock.
E Konerak Sinthasomphone não era “o garoto de catorze anos que a polícia devolveu”. Era um filho de imigrantes laocianos que desenhava tartarugas ninja e sonhava em ser engenheiro.
Você pode esquecer o nome do assassino.
Mas lembre o deles.
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
@jessyoliveira.oficial
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