Por Jessy Oliveira

Você já usou a palavra “orwelliano” numa conversa? Já falou em Big Brother sem estar se referindo ao reality show? Já disse que algo parecia “1984” quando viu uma câmera de vigilância, uma notícia censurada, um governo mentindo na cara do povo?
A maioria das pessoas que cita 1984 nunca leu o livro. Conhecem o conceito. Conhecem os slogans. “Guerra é paz. Liberdade é escravidão. Ignorância é força.” Sabem que existe uma coisa chamada Grande Irmão e uma coisa chamada Novilíngua. E param por aí.
Mas o que quase ninguém sabe é a história por trás do homem que escreveu esse livro. E essa história é, em muitos sentidos, tão perturbadora quanto a ficção.
O homem que morreu escrevendo o aviso
George Orwell cujo nome verdadeiro era Eric Arthur Blair terminou 1984 numa ilha remota na costa da Escócia chamada Jura. Estava morrendo de tuberculose. Tão doente que mal conseguia sentar na cama. Seu editor precisou enviar uma enfermeira até a ilha porque não havia assistência médica por perto.
Orwell digitou o manuscrito inteiro sozinho. Não tinha dinheiro para contratar um datilógrafo. Seus médicos acreditam que o esforço físico de datilografar centenas de páginas com os pulmões destruídos encurtou a vida dele. O livro foi publicado em junho de 1949. Orwell morreu em janeiro de 1950. Sete meses. Ele deu o que restava de vida para terminar um aviso que o mundo tratou como ficção científica.
E aqui está a primeira coisa que quase ninguém sabe: o título original do livro não era 1984. Era “O Último Homem da Europa”. O editor, Frederic Warburg, achou que soava literário demais e não venderia. Orwell trocou. Antes de chegar em 1984, considerou 1980 e 1982. A teoria mais aceita é que inverteu o ano em que terminou o livro 1948, mas ele nunca confirmou.
O título que ele realmente queria dizer tudo: o último homem da Europa. O último a pensar por conta própria. O último a resistir. O último a cair.
A Sala 101 existiu
Uma das cenas mais aterrorizantes do livro é a Sala 101 o lugar onde o Partido coloca você diante do seu maior medo, aquele tão insuportável que faz você trair tudo e todos para que o sofrimento pare. É ali que Winston quebra. É ali que ele entrega Julia. É ali que o ser humano se desfaz.
O que quase ninguém sabe é que a Sala 101 era real.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Orwell trabalhou como propagandista para a BBC. Produzia conteúdo de rádio voltado para a Índia e o Sudeste Asiático propaganda britânica disfarçada de informação. Ele descreveu o trabalho como inútil e repugnante. Na sede da BBC, na Portland Place, em Londres, havia uma sala de conferências onde ele era obrigado a participar de reuniões tediosas e humilhantes sobre como manipular melhor a opinião pública.
O número da sala era 101.
Orwell odiava tanto aquelas reuniões que transformou o número no endereço do pior lugar do mundo. O lugar onde o sistema te destrói por dentro. E o detalhe mais perturbador: ele fez propaganda. Ele participou da máquina. E foi justamente por ter estado dentro dela que soube descrevê-la com tanta precisão.
O vigiado que escreveu sobre vigilância
Enquanto Orwell escrevia um romance sobre um governo que vigia cada movimento de seus cidadãos, o governo britânico estava vigiando Orwell.
Por mais de doze anos, o serviço de inteligência britânico manteve um dossiê sobre ele. O motivo? Acreditavam que Orwell tinha opiniões socialistas. A vigilância começou depois que ele publicou “O Caminho para Wigan Pier”, um livro-reportagem sobre a pobreza da classe trabalhadora na Inglaterra. Uma das evidências no dossiê contra ele dizia que Orwell “se veste de forma boêmia”.
Leia de novo. O governo estava vigiando um escritor porque ele denunciava a pobreza e se vestia de um jeito que os agentes consideravam suspeito. E esse escritor, enquanto era vigiado, estava escrevendo o maior romance já feito sobre vigilância estatal.
Se isso estivesse num livro de ficção, você acharia inverossímil.
“2 + 2 = 5” não foi invenção de Orwell
O slogan mais famoso do livro a ideia de que o Partido pode forçar você a acreditar que dois mais dois é cinco, não saiu da cabeça de Orwell. Saiu da propaganda soviética.
Quando Stalin lançou o plano econômico de cinco anos para a União Soviética, o Partido Comunista anunciou que cumpriria as metas em quatro anos. O slogan oficial da campanha era: “2 + 2 = 5: aritmética do contraplano somada ao entusiasmo dos trabalhadores.” A matemática não importava. O que importava era que o Partido dissesse que era verdade e que o povo repetisse.
Orwell não inventou o absurdo. Ele observou o absurdo acontecendo na realidade e o colocou no livro. Essa é a diferença entre 1984 e a maioria das distopias: Orwell não imaginou um futuro possível. Ele descreveu um presente que já existia e perguntou: até onde isso pode ir?
Da mesma forma, a Polícia do Pensamento não foi inventada do nada. Orwell se baseou na Kempeitai a polícia militar secreta do Japão Imperial, que atuou de 1881 a 1945 e tinha o poder de prender cidadãos japoneses por terem “pensamentos antipatrióticos”. Não por ações. Por pensamentos.
O final que ninguém percebe
Todo mundo lembra que Winston perde. Que ele é torturado, quebrado, e no final ama o Grande Irmão. É um dos finais mais devastadores da literatura. A maioria dos leitores fecha o livro achando que Orwell não deixou nenhuma esperança.
Mas tem um detalhe que acadêmicos debatem há décadas e que a maioria dos leitores ignora completamente.
O livro tem um apêndice. Depois da história terminar, depois de Winston ser destruído, existe um texto chamado “Os Princípios da Novilíngua”. E esse apêndice é escrito no passado.
“A Novilíngua era a língua oficial da Oceania.”
Era. Não é. Era.
Essa escolha gramatical sugere que o regime caiu. Que alguém, num futuro distante, está descrevendo a Novilíngua como algo que existiu e não existe mais. Que existe um narrador depois da Oceania alguém que sobreviveu, que lembra, que está contando a história de um sistema que um dia dominou tudo e depois acabou.
Orwell nunca confirmou se isso foi intencional ou um descuido editorial. Morreu antes de explicar. Mas se foi intencional e muitos acadêmicos acreditam que sim, então 1984 não é um livro sem esperança. É um livro que esconde a esperança no único lugar onde o Partido não pode alcançar: num tempo verbal.
O que 1984 tem a ver com agora
Quando Orwell escreveu 1984, as teletelas televisões que assistem você enquanto você assiste a elas pareciam ficção científica. Hoje você está lendo este texto num dispositivo que tem câmera, microfone, localização GPS, e que registra cada palavra que você digita, cada site que visita, cada conversa que tem.
A diferença entre a Oceania de Orwell e o mundo de hoje é que ninguém nos obrigou a instalar a teletela. Nós compramos. Fizemos fila pra comprar. Pagamos em doze vezes.
Orwell avisou que o perigo era o Estado nos vigiar. Ele não previu que o perigo maior seria nós mesmos entregarmos toda a informação de bandeja voluntariamente, com senha e biometria em troca de conveniência. O Grande Irmão não precisou invadir nossas casas. Nós o convidamos pra entrar, demos acesso ao Wi-Fi e pedimos pra ele tocar uma playlist.
É por isso que 1984 continua sendo citado. Mas citar não é ler. E ler de verdade entender que Orwell não escreveu ficção, escreveu profecia é o que separa quem repete slogans de quem entende o aviso.
Por que eu indico
Eu escrevo sobre controle. Em A Última Geração, Evelyn cria um sistema que monitora, seleciona e decide quem merece viver e os protegidos agradecem. Em A Voz das Vítimas, a informação é a arma: quem controla a narrativa controla a verdade.
Orwell escreveu sobre isso em 1949, morrendo numa ilha, vigiado pelo próprio governo, sem dinheiro pra pagar alguém que datilografasse o manuscrito que ele sabia que seria a coisa mais importante que já escreveu.
Ele tinha razão.
Leia 1984. Não o resumo. Não a referência. Não o meme. O livro. Inclusive o apêndice. Principalmente o apêndice.
Porque talvez a esperança esteja onde ninguém procura: num verbo no passado, escondido depois do fim.
1984 George Orwell Publicação original: 1949 Editora no Brasil: Companhia das Letras
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
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