Por Jessy Oliveira

Cidade de Deus é um dos filmes brasileiros mais aclamados da história. Quatro indicações ao Oscar. Aplaudido no mundo inteiro. Virou referência de cinema, inspirou gerações de diretores, transformou atores desconhecidos de comunidades cariocas em estrelas. Todo mundo conhece o Zé Pequeno, o Buscapé, o Bené. Todo mundo lembra da cena da galinha, do “Dadinho é o caralho, meu nome agora é Zé Pequeno”.
Mas o filme é a versão possível de uma história impossível de contar em duas horas.
O livro é outra coisa. E quase ninguém leu.
Paulo Lins escreveu de dentro
A primeira coisa que separa Cidade de Deus de qualquer outro livro sobre violência no Brasil é que Paulo Lins não pesquisou a favela ele viveu nela. Cresceu na Cidade de Deus. Durante oito anos trabalhou como assessor de pesquisa antropológica no projeto “Crime e criminalidade nas classes populares”, coletando relatos de moradores, traficantes, trabalhadores e sobreviventes.
Quando publicou o romance em 1997, não estava interpretando a periferia de fora pra dentro. Estava devolvendo pra literatura o que a literatura brasileira sempre fingiu que não existia.
O crítico Roberto Schwarz chamou o livro de “aventura artística fora do comum”. E é exatamente isso. Cidade de Deus não é ficção sobre pobreza escrita por alguém que visitou o lugar com caderninho. É ficção feita de vivência, escrita por quem sabia os nomes reais por trás dos personagens.
O livro que te sufoca
O romance é dividido em três partes a história de Inferninho, a história de Pardalzinho e a história de Zé Miúdo (o Zé Pequeno do filme). Cada parte corresponde a uma geração de criminalidade na Cidade de Deus, dos anos sessenta até o início dos noventa. A pequena malandragem dos primeiros anos vai dando lugar ao tráfico organizado, à guerra territorial, à militarização do cotidiano.
O que o filme faz em duas horas com montagem dinâmica e trilha sonora envolvente, o livro faz em quase seiscentas páginas de linguagem crua, fragmentada, sem concessão. Lins mistura oralidade com lirismo, gíria de favela com prosa poética, brutalidade com ternura. É uma leitura difícil. Não porque seja mal escrita pelo contrário, mas porque não te dá descanso. Não tem intervalo pra respirar, não tem alívio cômico, não tem herói que resolve tudo no terceiro ato.
O filme precisa de um protagonista e encontra em Buscapé o narrador que guia o espectador pela história com segurança. O livro também tem Buscapé, mas ele é uma voz entre muitas. No romance, a favela é o protagonista. As vidas se cruzam, se perdem, se destroem, e nenhuma delas é mais importante que a outra. Essa coletividade, essa recusa de transformar a tragédia numa jornada individual é o que torna o livro mais honesto e mais devastador.
O que o filme transformou em entretenimento
E aqui está o incômodo que precisa ser dito.
Cidade de Deus, o filme, é brilhante como cinema. Mas é entretenimento. Fernando Meirelles transformou a matéria-prima brutal de Paulo Lins numa narrativa com ritmo de videoclipe câmera na mão, edição frenética, personagens carismáticos, trilha sonora que gruda. O mundo inteiro assistiu, aplaudiu, indicou ao Oscar.
E depois foi jantar.
O livro não te deixa ir jantar. O livro te segura pela garganta e te obriga a olhar. Cada página tem um corpo. Cada capítulo tem uma mãe que perdeu um filho. Cada geração repete o ciclo da anterior com mais crueldade e menos esperança. Não tem montagem bonita, não tem câmera lenta, não tem corte antes do pior.
O problema não é o filme existir. O filme é importante levou a realidade da favela pra telas do mundo inteiro. O problema é que pra muita gente, o filme substituiu o livro. E ao substituir, transformou a dor real em produto cultural consumível. O espectador sai do cinema achando que entendeu. Mas entendeu a versão editada, roteirizada, com começo, meio e fim. A realidade não tem roteiro. E o livro de Paulo Lins é o mais perto que a literatura brasileira chegou de mostrar isso.
A favela como espetáculo de novo
Depois do sucesso do filme, a Cidade de Deus virou ponto turístico. Gringos faziam “tours de favela” pra tirar foto onde o Zé Pequeno matou o Mané Galinha. Produtoras internacionais tentaram reproduzir a fórmula. A violência periférica brasileira virou gênero cinematográfico.
E quem morava lá continuou morrendo.
Essa é a contradição que o livro expõe e o filme, mesmo sem querer, alimenta. Transformar a realidade da periferia em conteúdo é um gesto que pode informar, pode denunciar, mas também pode consumir. Depende de quem está contando e de quem está assistindo.
Paulo Lins contou de dentro. O filme contou de uma sala de edição em São Paulo. Os dois contaram. Mas um deles sangra.
A escrita que nasce da rua
Outra coisa que se perde na adaptação: a linguagem. Lins escreve como a favela fala. As frases são curtas, violentas, musicais. Há um trecho famoso que funciona quase como poesia: “Falha a fala. Fala a bala.” Seis palavras que resumem o livro inteiro. Quando a palavra falha quando o Estado não escuta, quando a escola não alcança, quando a família se desfaz, quem fala é a violência.
Essa oralidade não existe no filme. Não pode existir cinema é imagem, não é prosa. Mas é essa oralidade que faz do livro um documento vivo. Lins não escreve sobre a favela. Ele escreve a favela. A diferença é a mesma que existe entre assistir a um documentário sobre fome e passar fome.
Por que eu indico o livro
Eu escrevo sobre sistemas que transformam pessoas em produto. Em A Voz das Vítimas, a dor de uma mulher vira podcast. Em A Última Geração, a humanidade vira experimento. Em ambos, a pergunta é a mesma: quem lucra com o sofrimento dos outros?
Cidade de Deus faz essa pergunta antes de todo mundo e com mais autoridade. Paulo Lins não precisou inventar um vilão. O sistema já estava lá. A polícia que mata e protege ao mesmo tempo. O tráfico que dá emprego onde o Estado não chega. A classe média que consome a droga e condena quem vende.
Se você assistiu ao filme e achou que entendeu, leia o livro. Você vai descobrir que não entendeu nada. E que esse desconforto essa sensação de que o livro te obriga a enxergar o que o filme te autorizou a ignorar é exatamente o ponto.
Cidade de Deus Paulo Lins Publicação original: 1997 Editora: Companhia das Letras
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
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