Por Jessy Oliveira

Se você conhece O Conto da Aia, provavelmente conhece pela série. Pelo vestido vermelho, pelo capuz branco, pela Elisabeth Moss olhando pra câmera com aquela raiva contida que virou meme, pôster e fantasia de protesto político.
Mas eu preciso te fazer uma pergunta: você leu o livro?
Porque se não leu, você não conhece O Conto da Aia. Você conhece a versão da Hulu.
E a diferença é maior do que parece.
O que a série te dá e o que ela tira
A série é boa. Bem produzida, bem atuada, visualmente impecável. Mas ela faz uma escolha que muda tudo: ela expande. A série transforma uma história contida, sufocante e claustrofóbica num épico político com várias temporadas, tramas paralelas, arcos de vingança e reviravoltas de roteiro.
O livro de Margaret Atwood não faz nada disso.
O livro é a voz de uma mulher. Só isso. Uma mulher chamada Offred que narra, em fragmentos, a vida dentro de um regime teocrático onde mulheres férteis foram reduzidas a ventres. Não há explosões. Não há planos de fuga elaborados. Não há heroísmo no sentido que a série vende.
O que há é uma mulher tentando não enlouquecer.
E é exatamente por isso que o livro é mais assustador.
O terror do cotidiano
O que Atwood faz de genial e que a série dilui pra manter o ritmo televisivo é mostrar como o horror se instala na rotina. Offred não acorda um dia num mundo distópico. Ela lembra, aos poucos, como tudo foi mudando. Primeiro tiraram o direito ao trabalho. Depois o acesso ao dinheiro. Depois a liberdade de sair sozinha. E em cada etapa, alguém dizia que era temporário, que era pra proteção, que ia melhorar.
Não melhorou.
E o pior: ela se acostumou. O leitor também.
Essa normalização gradual do horror é o coração do livro. Na série, Gilead é apresentada como um monstro óbvio desde o primeiro episódio. No livro, Gilead é apresentada como algo que aconteceu enquanto ninguém estava prestando atenção. E essa diferença muda tudo. Porque a primeira versão te faz pensar “que bom que isso é ficção”. A segunda te faz pensar “isso poderia acontecer aqui”.
A voz de Offred
Outra coisa que se perde na adaptação: a forma como Offred pensa. No livro, ela é irônica, sarcástica, contraditória. Tem desejo, tem tédio, tem raiva e tem resignação tudo ao mesmo tempo. Ela não é uma heroína. É uma mulher comum numa situação extraordinária, e Atwood nunca tenta transformá-la em algo que ela não é.
Na série, Offred se torna June uma líder de resistência, alguém que enfrenta o sistema. Funciona pra televisão, mas trai a essência do livro. Porque o ponto de Atwood nunca foi “uma mulher corajosa vence o sistema”. O ponto era: o que acontece com uma pessoa comum quando o sistema decide que ela não é mais pessoa?
Por que eu indico o livro
Eu escrevo sobre controle. Sobre o que acontece quando sistemas governos, tecnologias, pessoas decidem que sabem o que é melhor pra você. Em A Última Geração, Evelyn constrói domos que salvam e aprisionam ao mesmo tempo. Em A Voz das Vítimas, a dor de uma mulher é transformada em produto sem que ninguém peça permissão.
Atwood fez isso antes de todo mundo. Em 1985. E o fez com uma precisão cirúrgica que continua cortando quarenta anos depois.
Se você leu meus livros e quer entender de onde vem parte do que me move como escritora, leia O Conto da Aia. O livro. Não a série.
A série te entretém. O livro te muda.
O Conto da Aia Margaret Atwood Publicação original: 1985 Editora no Brasil: Rocco
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
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