Por Jessy Oliveira

Existe uma pergunta que a sociedade faz sobre mulheres que tiveram filhos dos seus agressores e que não deveria fazer. A pergunta é: como ela consegue amar essa criança?
Como se o amor precisasse de uma origem limpa pra existir. Como se uma mãe precisasse justificar o amor pelo próprio filho. Como se a violência que gerou a criança contaminasse a criança em si.
O Quarto de Jack não responde essa pergunta. Ele a destrói. Porque depois de ler esse livro, a pergunta muda. Não é mais “como ela consegue amar?”. É “como alguém pode duvidar que ela ama?”.
O mundo cabe num quarto de três por três
Emma Donoghue publicou o romance em 2010, inspirada no caso real de Elisabeth Fritzl a mulher austríaca que foi mantida presa no porão pelo próprio pai durante vinte e quatro anos, onde deu à luz sete filhos.
Mas Donoghue não quis recontar o caso Fritzl. Quis fazer algo que nenhuma manchete fez: imaginar como é crescer num mundo onde quatro paredes são tudo que existe.
O livro é narrado inteiramente por Jack, um menino de cinco anos. Ele nasceu naquele quarto. Nunca viu o céu. Nunca pisou na grama. Nunca tocou em outro ser humano além da mãe. Para Jack, o Quarto não é uma prisão é o universo inteiro. Tapete tem nome próprio. Pia tem nome próprio. A claraboia no teto é o único pedaço de céu que ele conhece. A televisão mostra imagens que ele acredita serem mágicas, não reais. Quando a mãe finalmente conta que existe um mundo lá fora, Jack não acredita. Não consegue. Como você acredita que o mundo é infinito quando passou a vida inteira dentro de três por três metros?
Essa escolha narrativa é o que torna o livro insuportavelmente brilhante. Porque o leitor sabe o horror que está acontecendo. Sabe que a mãe chamada apenas de Ma — foi sequestrada aos dezenove anos por um homem que o livro chama de Velho Nick. Sabe que ela é estuprada regularmente. Sabe que está presa há sete anos. Mas Jack não sabe. Para Jack, Ma é o mundo inteiro, e o Quarto é o único lugar seguro que existe. E a mãe faz de tudo absolutamente tudo para que ele continue acreditando nisso.
A mãe que construiu um mundo dentro do horror
Ma é uma das personagens mais extraordinárias que eu já li. Não porque seja forte no sentido que a ficção costuma vender, não é uma heroína de ação, não é uma guerreira que enfrenta o vilão de frente. É uma mulher que acorda todos os dias no mesmo quarto onde foi violentada na noite anterior e, antes que o filho abra os olhos, organiza uma rotina que inclui exercícios físicos, aulas improvisadas, brincadeiras, leitura e culinária com os poucos ingredientes que o sequestrador fornece.
Ela ensina Jack a ler. Ensina matemática. Inventa jogos. Cria um mundo funcional, amoroso e estimulante dentro de um espaço onde a maioria das pessoas teria enlouquecido.
E aqui está o que quase ninguém discute: antes de Jack, Ma teve outra gravidez. Uma menina que nasceu morta. No livro, essa informação aparece de passagem, quase como um sussurro. O filme cortou essa parte completamente. Mas é um detalhe que muda tudo. Porque significa que Ma já havia perdido um filho naquele quarto antes de ter Jack. E mesmo assim, quando Jack nasceu, ela escolheu sem hesitar fazer dele a razão para continuar viva.
Não apesar das circunstâncias. Dentro delas.
O livro vs. o filme: o que se perde e o que se ganha
O filme de 2015, dirigido por Lenny Abrahamson, é uma adaptação rara, fiel, sensível e poderosa. Brie Larson ganhou o Oscar por sua interpretação de Ma, e mereceu cada segundo daquele prêmio. Jacob Tremblay, que tinha oito anos durante as filmagens, entrega uma performance que faz esquecer que ele está atuando. O filme é doloroso de assistir. E é bonito de uma forma que machuca.
Mas o livro faz algo que o filme não consegue: te coloca dentro da cabeça do Jack.
No livro, tudo é filtrado pela voz dele. Quando Velho Nick entra no quarto à noite, Jack está escondido dentro do armário. Ele ouve barulhos que não entende. Sente o armário balançar. De manhã, Ma está diferente mais quieta, mais distante, às vezes com marcas que ela explica como acidentes. Jack aceita as explicações porque confia na mãe completamente. O leitor aceita o horror porque está preso na inocência do narrador.
O filme não pode reproduzir isso. Cinema é imagem e a imagem mostra o que o texto de Jack esconde. O espectador vê Brie Larson esperando no escuro, vê o medo nos olhos dela quando ouve a porta destrancando, vê o que Jack não vê. Isso torna o filme mais explícito no sofrimento de Ma, mas menos sufocante na experiência do leitor.
Outra diferença importante: no livro, a segunda metade depois da fuga é muito mais longa e mais difícil. Donoghue dedica centenas de páginas ao que acontece quando Ma e Jack saem do Quarto. Jack vai a um shopping e entra em pânico. Ma tenta se readaptar à família e percebe que o mundo seguiu em frente sem ela o irmão casou, os pais se separaram, tudo mudou. A mídia a persegue. Um entrevistador de televisão pergunta se ela considerou entregar Jack ao sequestrador para que ele tivesse uma “vida normal”.
Leia de novo essa frase. Um entrevistador pergunta a uma mulher que foi estuprada durante sete anos se ela pensou em dar o filho dela ao estuprador.
Donoghue escreveu essa cena baseada em perguntas reais feitas a vítimas reais. E é nesse momento que o livro ultrapassa o filme em brutalidade não pela violência física, mas pela violência do julgamento. A sociedade resgata a vítima e imediatamente começa a avaliá-la. Ela deveria ter feito diferente. Ela deveria ter lutado mais. Ela deveria ter protegido melhor. Ela deveria, ela deveria, ela deveria.
Ma tenta se matar depois dessa entrevista.
O filme mostra a tentativa de suicídio, mas comprime todo o peso do pós-resgate em poucas cenas. O livro te obriga a viver cada dia daquela readaptação impossível. E é na segunda metade que o livro se torna verdadeiramente devastador, porque mostra que sair do Quarto não é o final feliz. É o começo de outro tipo de prisão: a de ser uma sobrevivente num mundo que não sabe o que fazer com sobreviventes.
O amor que não precisa de justificativa
O que torna O Quarto de Jack diferente de qualquer outro livro sobre cativeiro é que ele não é um livro sobre cativeiro. É um livro sobre maternidade. Sobre o que uma mãe é capaz de construir quando tudo lhe foi tirado liberdade, dignidade, corpo, futuro exceto uma coisa: o filho.
Jack não é “o filho do estuprador”. Jack é o filho da Ma. É o garoto que nomeia os objetos do quarto, que conta os dentes antes de dormir, que acredita que a luz do sol é uma pessoa chamada Deus que entra pela claraboia toda manhã. Jack é inocência pura, e Ma dedicou cada segundo de sete anos para garantir que ele continuasse assim.
Há uma frase no livro que resume tudo. Ma diz a Jack: “Eu não escolhi o Quarto. Mas escolhi você.”
Essa é a resposta pra pergunta que não deveria ser feita. Ela não ama Jack apesar das circunstâncias. Ela ama Jack porque ele é dela. Porque amor materno não precisa de uma origem bonita. Precisa de uma mãe.
Por que eu indico
Eu escrevo sobre mulheres que carregam cicatrizes que o mundo transforma em espetáculo. Em A Voz das Vítimas, Elizabeth teve a dor gravada em fitas e consumida por estranhos. No blog, na seção A Voz das Vítimas, eu conto as histórias das pessoas que a mídia reduz a números.
O Quarto de Jack faz o oposto do que a mídia faz. Em vez de explorar a dor, entra nela com delicadeza. Em vez de julgar a mãe, mostra o que ela construiu. Em vez de perguntar “como ela consegue amar?”, mostra que a pergunta certa sempre foi outra: como alguém pode duvidar?
Se você leu meus livros e entendeu que a ficção pode devolver humanidade a quem foi desumanizado, leia O Quarto de Jack.
É um livro sobre o pior que pode acontecer a uma mulher. E sobre o melhor que pode nascer dentro do pior.
O Quarto de Jack Emma Donoghue Publicação original: 2010 Editora no Brasil: Alfaguara
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
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