Psicopata Americano: o monstro que a sociedade criou e se recusa a reconhecer

Por Jessy Oliveira

Quando você pensa num psicopata, qual imagem vem à cabeça?

Aposto que é alguém sombrio, recluso, estranho. Alguém que os vizinhos depois descrevem como “sempre foi esquisito”. Alguém que mora sozinho, não se encaixa, carrega algo visível no olhar que deveria ter servido de alerta.

Agora imagine o oposto. Um homem de vinte e sete anos, bonito, rico, educado em Harvard. Terno sob medida. Restaurantes caros. Cartão de visita em papel de algodão com letras em relevo. Um sorriso que abre portas. Um charme que desarma. O tipo de homem que a sociedade olha e pensa: esse aí venceu.

Esse é Patrick Bateman. E ele é um dos personagens mais perturbadores da literatura contemporânea não pelo que ele faz, mas pelo que ele revela sobre o mundo que o criou.


O livro que quase não existiu

Bret Easton Ellis publicou Psicopata Americano em 1991, e o resultado foi um caos editorial. A editora original, Simon & Schuster, devolveu o manuscrito antes da publicação algo praticamente inédito. Grupos feministas organizaram boicotes. Ellis recebeu ameaças de morte. O livro foi banido em alguns países. A Austrália vendia embalado em plástico, proibido para menores.

O motivo? A violência. O livro descreve os crimes de Bateman com um nível de detalhe que ultrapassa qualquer limite de conforto. Cenas de tortura, mutilação e canibalismo são narradas com a mesma frieza e precisão que Bateman usa para descrever suas roupas de grife, sua rotina de cuidados com a pele e o cardápio de restaurantes onde ele janta.

E é exatamente aí que está a genialidade de Ellis.


A violência como espelho

A maioria das pessoas que rejeita o livro comete o mesmo erro: lê a violência como gratuitidade. Como se Ellis tivesse escrito cenas brutais só para chocar. Mas a violência de Psicopata Americano não é o ponto é a metáfora.

Bateman descreve uma sessão de tortura com o mesmo tom, o mesmo ritmo, a mesma atenção obsessiva ao detalhe com que descreve um terno Valentino ou a textura do papel de um cartão de visitas. Essa equivalência é proposital. Ellis está dizendo, em cada página, que para Bateman e para o mundo que ele habita não existe diferença entre consumir um produto e consumir uma pessoa. Ambos são objetos. Ambos existem para satisfazer um desejo momentâneo. Ambos são descartáveis.

A violência extrema é a extensão lógica de uma sociedade onde tudo e todos têm um preço, e onde o valor de uma vida se mede pela marca da roupa que ela veste.


Ninguém tem rosto

Uma das coisas mais perturbadoras do livro e que o filme captura bem, mas não com a mesma insistência é que ninguém se reconhece. Os personagens se confundem uns com os outros o tempo inteiro. Chamam Bateman por nomes errados. Ele chama os outros por nomes errados. Ninguém corrige. Ninguém se importa.

Porque naquele universo, identidade não existe. Todos vestem as mesmas roupas, frequentam os mesmos restaurantes, falam as mesmas frases vazias, competem pelos mesmos símbolos de status. A famosa cena dos cartões de visita onde Bateman entra em pânico porque o cartão de um colega tem uma tipografia melhor que o dele é cômica no filme, mas no livro é aterrorizante. Porque o leitor entende que essa é a única coisa que define essas pessoas. Tire a roupa, tire o cargo, tire o cartão e não sobra nada. Nenhuma substância. Nenhuma personalidade. Nenhuma alma.

Bateman mata porque é a única coisa que o faz sentir algo. Num mundo onde todos são iguais e tudo é superfície, a violência é o único ato que parece real.


O filme suavizou e isso muda tudo

O filme de 2000, dirigido por Mary Harron com Christian Bale, é brilhante no que se propõe a fazer. Bale criou um Bateman icônico o sorriso forçado, a rigidez corporal, o monólogo sobre Huey Lewis antes de matar Paul Allen com um machado. Harron entendeu que mostrar toda a violência do livro destruiria a sátira, e optou por sugerir em vez de explicitar. Funcionou. O filme é perturbador, engraçado e inteligente.

Mas ele é outra coisa.

O livro te sufoca. São páginas e páginas de descrição de produtos intercaladas com páginas e páginas de violência insuportável, e essa repetição massacrante é o ponto. Ellis quer que o leitor se canse. Quer que o leitor se sinta preso naquele ciclo sem fim de consumo e destruição, da mesma forma que Bateman está preso. O livro é uma experiência de resistência ele testa o quanto você aguenta antes de fechar o livro e desistir. E se você desiste, Ellis vence, porque você fez exatamente o que a sociedade do livro faz: virou as costas porque era mais fácil não olhar.

O filme, por ser mais acessível, permite que o espectador assista, se entretenha e saia. O livro não te deixa sair ileso.

Outra diferença fundamental: a ambiguidade. No livro, Ellis nunca confirma se os assassinatos aconteceram de verdade ou se são fantasias de uma mente em colapso. O advogado de Bateman afirma ter jantado com Paul Allen em Londres o mesmo Paul Allen que Bateman matou com um machado. O apartamento onde os corpos estavam é encontrado limpo, reformado, à venda. A realidade se desfaz. O filme mantém parte dessa ambiguidade, mas inclina mais para a interpretação de que os crimes são reais. O livro te deixa sem chão e esse desconforto é intencional.


O mal não tem rosto definido

E aqui está o que mais importa neste livro e o motivo pelo qual eu o indico.

A sociedade precisa acreditar que o mal tem cara. Que psicopatas são reconhecíveis, identificáveis, diferentes de nós. Precisamos acreditar nisso porque a alternativa é apavorante: aceitar que o monstro pode ser o homem mais charmoso da sala, o mais bem-vestido, o mais bem-sucedido, o que todos admiram e querem imitar.

Bateman não é estranho. Bateman é o ideal. É o que aquela sociedade produziu como modelo de sucesso. E é exatamente isso que o torna impossível de detectar, porque denunciar Bateman seria denunciar o sistema inteiro.

Quando Bateman confessa seus crimes numa secretária eletrônica, ninguém acredita. Quando diz a uma mulher que trabalha com “assassinatos e execuções”, ela entende “fusões e aquisições”. Ninguém ouve porque ninguém quer ouvir. A verdade está ali, exposta, e o mundo escolhe não ver, porque ver significaria questionar tudo em que acredita.

O mal não precisa de rosto definido. Não precisa de status pré-estabelecido. Ele pode usar terno Armani, jantar no restaurante mais caro de Manhattan e ter o cartão de visita mais bonito da mesa.

E é por isso que esse livro, trinta e cinco anos depois, continua sendo um dos retratos mais brutais e necessários da sociedade ocidental.


Por que eu indico

Eu escrevo sobre monstros que se disfarçam. Em A Voz das Vítimas, Edric usa a máscara de marido protetor. Em A Última Geração, Evelyn usa a máscara de salvadora. Em ambos os casos, o horror não está no ato está na superfície que esconde o ato. Na normalidade que permite que ele aconteça.

Ellis fez isso antes, com mais brutalidade e menos piedade. Se você aguenta a leitura e não é uma leitura fácil, Psicopata Americano vai mudar a forma como você olha para o homem de terno que sorri pra você na reunião de trabalho.

Não porque todo homem de terno seja um assassino. Mas porque a sociedade que adora um homem de terno é a mesma sociedade que não quer saber o que ele faz quando ninguém está olhando.


Psicopata Americano Bret Easton Ellis Publicação original: 1991 Editora no Brasil: Rocco


Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.

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