A Mulher na Janela: um livro ótimo escrito por um homem patético

Por Jessy Oliveira


Dan Mallory mentiu que tinha câncer no cérebro.

Não uma vez. Não num momento de fraqueza. Durante anos. Para colegas, editores, amigos, jornalistas. Fabricou e-mails fingindo ser o próprio irmão, descrevendo em detalhes uma cirurgia na coluna de sete horas que nunca aconteceu. Contou que a mãe morreu de câncer. A mãe está viva. Contou que o irmão se suicidou. O irmão está vivo. Escreveu num ensaio para Oxford que a família inteira estava morta. Ninguém conferiu.

Depois publicou um best-seller sobre uma mulher que ninguém acredita.

A piada se escreve sozinha.


O livro é bom. Vamos tirar isso do caminho.

A Mulher na Janela funciona. Anna Fox, agorafóbica, trancada em casa, entupida de remédio e vinho, vê algo terrível pela janela. Conta pra polícia. Ninguém acredita. O leitor passa trezentas páginas se perguntando se ela está louca ou se o mundo ao redor é que está podre.

A premissa é forte. A construção é eficiente. O livro te segura até o final.

Pronto. Elogiei. Agora vamos falar do escritor.


O currículo do mentiroso

Dan Mallory, que assina como A.J. Finn porque evidentemente o próprio nome já estava queimado demais, trabalhou em editoras grandes em Londres e Nova York. E em cada uma delas, a rotina era a mesma: chegava, impressionava, subia rápido, começava a mentir e, quando as mentiras ficavam insustentáveis, saía.

Na Little, Brown, em Londres, disse aos colegas que tinha câncer no cérebro. Sumiu por semanas. Voltou sem uma marca, sem um curativo, sem uma cicatriz. Os colegas acharam o milagre estranho, mas ninguém confrontou. Porque quem vai questionar um homem que diz ter câncer? Quem quer ser a pessoa que desconfia de um doente?

Mallory sabia disso. Usou a doença inventada como escudo. Doença gera pena. Pena gera silêncio. Silêncio gera espaço pra fazer o que quiser.

Na William Morrow, nos Estados Unidos, mesma coisa. Mentiu sobre credenciais. Disse ter doutorado em Oxford e nunca entregou uma tese. Disse ter sido responsável pela publicação de um livro da J.K. Rowling não teve papel nenhum. E quando A Mulher na Janela entrou em leilão e a identidade dele foi revelada, várias editoras desistiram na hora. Sabiam quem ele era. A William Morrow ficou. Comprou. Vendeu pro cinema. Fez dinheiro.

O mercado editorial dificilmente pode alegar ingenuidade. Em vários momentos, havia sinais suficientes para levantar dúvidas. Ainda assim, preferiu apostar no autor que prometia lucro. Quando o dinheiro entra na equação, o caráter costuma sair pela porta.


O homem que vestiu a dor de mulher como fantasia

Isso é o que me irrita de verdade. Não as mentiras sobre câncer, isso diz respeito ao caráter dele e às consequências dos próprios atos. O que me incomoda é a forma como ele transformou uma experiência feminina muito real em produto.

O livro inteiro é construído em cima de uma premissa que mulheres reais vivem todo dia: falar a verdade e não ser acreditada. Denunciar e ser ignorada. Pedir ajuda e ouvir que está exagerando, que está histérica, que está bêbada, que está louca. Anna Fox é toda mulher que um dia disse “ele me bateu” e ouviu “mas você tem certeza?”.

Mallory não viveu nada disso. Mallory é um homem branco, educado em Duke e Oxford, que nunca foi desacreditado por ser quem é. Pelo contrário foi acreditado demais. Mentiu durante anos e ninguém questionou. Fabricou uma vida inteira de tragédias e a indústria engoliu, aplaudiu e assinou cheque.

E depois teve a audácia de escrever um livro sobre uma mulher que ninguém acredita.

Nas aparições públicas, ele se vendia como um homem sensível. O tipo que “entende” a experiência feminina. Que escreve com “empatia”. Que se conecta com a dor alheia. Em entrevistas, inventou paralelos entre a vida dele e a de Anna como se ele também soubesse o que é ser ignorado, ser invisível, ser descartado.

A mãe que ele matou nas entrevistas estava assistindo de casa.


A indústria que protege os seus

Quando a New Yorker publicou a investigação em 2019, doze mil palavras de mentiras documentadas, o que aconteceu com Dan Mallory?

Nada.

O livro continuou vendendo. O filme com Amy Adams foi lançado. Mallory publicou um segundo romance em 2024. A indústria editorial soltou uma nota genérica de “preocupação” e seguiu em frente.

Agora compara com o que frequentemente acontece quando uma autora mulher comete qualquer deslize. Uma frase problemática num tuíte. Uma opinião impopular. Muitas vezes a internet cancela, editoras recuam e contratos desaparecem. Enquanto isso, um homem que mentiu sobre câncer, inventou mortes na própria família, fraudou credenciais e explorou a compaixão alheia conseguiu seguir publicando normalmente.

A Sophie Hannah — autora de thrillers que trabalhou com Mallory — escreveu um livro em 2015 onde o vilão é um homem charmoso que finge ter uma doença que não tem e se passa pelo próprio irmão. Quando perguntaram se era baseado em Mallory, ela desviou. Disse que existiam “paralelos óbvios” com “rumores que circulavam”.

Ela sabia. Todo mundo sabia. Ninguém fez nada porque ele era útil. Porque ele era charmoso. Porque ele era lucrativo.


Dá pra separar obra e autor?

Olha, eu vou ser direta: dá.

O livro é bom. Funciona. Se alguém te der sem contexto, você vai gostar. Anna Fox é uma personagem forte, a trama é bem amarrada, o final surpreende.

Mas saber quem escreveu adiciona uma camada que você não consegue ignorar. A qualidade da obra permanece. O caráter do autor não. E uma coisa não apaga a outra. Cada vez que Anna grita “eu vi, eu sei o que vi” e ninguém acredita, o texto ganha um peso diferente quando você lembra que o autor era ele mesmo o maior mentiroso do mercado. Ele escreveu um livro sobre a tragédia de não ser acreditada sendo o exemplo perfeito de por que a sociedade deveria acreditar menos em homens charmosos com histórias tristes.

A Mulher na Janela é um livro sobre uma mulher presa dentro de casa que vê a verdade e é tratada como louca.

Foi escrito por um homem que prendeu todo mundo dentro das mentiras dele e quando a verdade apareceu, continuou vivendo como se nada tivesse acontecido.

Leia o livro se quiser. É bom.

Mas saiba quem lucrou com ele. E se pergunte quantos Dan Mallory existem por aí, usando a dor de mulheres como trampolim, protegidos por uma indústria que prefere o lucro ao caráter.


Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.

@jessyoliveira.oficial

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