Por Jessy Oliveira

A Copa do Mundo está acontecendo agora. Você provavelmente já gritou o nome de algum jogador nessa semana. Vestiu uma camisa, acordou cedo, vibrou com um gol. Normal. O mundo inteiro faz isso.
Mas enquanto os estádios lotam e as transmissões batem recordes de audiência, existem mulheres que ouvem esses mesmos nomes e sentem algo muito diferente de empolgação. Mulheres que procuraram a polícia, prestaram depoimento e afirmam ter sofrido violência sexual por parte de jogadores que estão, neste momento, em campo nesta Copa.
Eu quero te contar o que essas mulheres disseram. Não o que os advogados responderam. O que elas disseram.
Mendes

Esse caso é o mais recente. E tem uma diferença que deveria incomodar cada brasileiro que está lendo isso: a vítima é brasileira.
Em 27 de março de 2026, durante o FIFA Series na Nova Zelândia, Ryan Mendes capitão da seleção de Cabo Verde, estava hospedado num hotel em Auckland. A seleção cabo-verdiana tinha acabado de perder para o Chile por 4 a 2. No mesmo hotel, trabalhava uma brasileira contratada pela Federação Neozelandesa de Futebol como intérprete e apoio operacional da delegação de Cabo Verde. Ela estava de plantão 24 horas, hospedada ali pra atender qualquer demanda da equipe.
Segundo o relato que ela prestou à polícia, foi convidada para uma reunião numa sala reservada à seleção. Compareceu acreditando que precisaria exercer sua função de intérprete. Percebeu que era uma confraternização e se sentiu mal. Saiu. Voltou ao quarto. Pouco depois, bateram na porta. Ela abriu acreditando que era uma demanda de trabalho.
De acordo com a denúncia, Ryan Mendes entrou no quarto e a agrediu com socos, mordidas e esganaduras. E a estuprou.
A mulher procurou uma clínica especializada no atendimento a sobreviventes de violência sexual. O relatório médico ao qual o GE teve acesso registrou múltiplas equimoses nas mamas, no pescoço e nos lábios, áreas sensíveis no couro cabeludo e nas nádegas, e “duas lesões circulares, dolorosas à palpação, na base dos pequenos lábios”. Ela entregou à polícia fotos de hematomas em várias partes do corpo.
A polícia da Nova Zelândia confirmou o inquérito em andamento, registrado em 10 de abril de 2026.
A brasileira e o marido enviaram notificações extrajudiciais à Federação Cabo-Verdiana de Futebol e à FIFA, pedindo o afastamento do jogador. Preencheram um formulário de Safeguarding da FIFA. Até o momento da publicação deste texto, nenhuma das duas entidades respondeu.
Ryan Mendes disputou os três jogos de Cabo Verde na fase de grupos da Copa como titular e capitão. Cabo Verde avançou e enfrentou a Argentina na fase seguinte. Enquanto a brasileira que o acusou espera por uma resposta que ninguém deu, ele entrou em campo usando a braçadeira de capitão no maior torneio de futebol do planeta.
Uma brasileira. Trabalhando. Num hotel. De plantão. Abriu a porta achando que era trabalho. Relatório médico com lesões documentadas. Fotos de hematomas. Registro policial. Notificação à FIFA. E a resposta de todo mundo foi: silêncio.
Hakimi

Em fevereiro de 2023, uma mulher de 24 anos entrou numa delegacia nos arredores de Paris. Não queria registrar queixa formal e sim deixar um relato. Segundo os registros policiais, ela disse que não queria que “isso acontecesse com outras meninas”.
De acordo com o que ela relatou, conheceu Achraf Hakimi pelo Instagram em janeiro daquele ano. Ele mandou um carro buscá-la. Na casa dele, segundo o relato, as coisas foram além do que ela consentiu.
Ela não procurou a imprensa. Não criou perfil em rede social pra contar a história. A única coisa que pediu foi que ficasse registrado.
A psicóloga Anne Parachout, designada pela justiça, avaliou a mulher meses depois e registrou que o relato parecia “sincero e autêntico”, sem sinais de “tendência à fabulação ou mitomania”. A defesa de Hakimi contestou o laudo apontando, corretamente, que a própria psicóloga ressalvou que suas observações não comprovavam a ocorrência dos fatos. Essa ressalva é padrão em avaliações forenses: o papel do psicólogo é avaliar a credibilidade do relato, não determinar se o crime aconteceu. A distinção importa. Mas o que também importa é que três anos depois da denúncia, em junho de 2026, o Tribunal de Apelação de Versalhes decidiu que existem provas suficientes pra levar Hakimi a julgamento criminal por estupro.
A advogada dela, Rachel-Flore Pardo, disse que a decisão trouxe “alívio e esperança” à sua cliente. Disse também que, ao longo de três anos de processo, sua cliente foi “difamada e arrastada na lama pela defesa de Hakimi”.
Três anos entre a denúncia e a confirmação do julgamento. Nesse intervalo, ele disputou duas temporadas completas de Champions League, capitaneou a seleção marroquina e assinou contratos de patrocínio. Ela esperou.
Hakimi nega todas as acusações e afirma aguardar o julgamento para provar sua inocência.
Partey

Esse caso é diferente dos demais, pois não há apenas uma denúncia, mas quatro.
Quatro mulheres diferentes procuraram a polícia metropolitana de Londres entre 2020 e 2022 e denunciaram o mesmo homem: Thomas Partey, meio-campista da seleção de Gana. Você não sabe o nome de nenhuma delas porque a lei britânica garante anonimato vitalício a vítimas de crimes sexuais. Elas existem nos autos como letras e números.
A investigação policial começou em fevereiro de 2022. Em julho de 2025, Partey foi formalmente acusado de cinco crimes de estupro e um de agressão sexual. Em fevereiro de 2026, vieram mais duas acusações, referentes a dezembro de 2020. Sete acusações de estupro e uma de agressão sexual no total. O detetive superintendente Andy Furphy declarou publicamente que a prioridade da polícia era “oferecer apoio às mulheres que se apresentaram”.
Durante a Copa, o Canadá barrou a entrada de Partey no país por causa das acusações. A seleção de Gana jogou a estreia sem ele. Dias depois, os Estados Unidos concederam autorização de entrada e Partey voltou ao time. Quando a imprensa perguntou sobre sua ausência no primeiro jogo, ele respondeu: “Fazem parte do futebol. Coisas acontecem fora do futebol que você não pode controlar. Eu me sinto bem e pronto pra jogar.”
Coisas acontecem fora do futebol. É assim que ele resume o que quatro mulheres foram à polícia denunciar.
O julgamento foi adiado pra junho de 2027. Partey nega todas as acusações.
Sano

Em julho de 2024, dez dias depois de assinar contrato com o Mainz 05 da Alemanha, Kaishu Sano foi preso em Tóquio.
A história que a imprensa japonesa reconstruiu é a seguinte: cinco pessoas jantaram juntas naquela noite, três homens e duas mulheres. Uma das mulheres saiu mais cedo. Entre duas e quatro da madrugada, segundo as alegações registradas pela polícia, os três homens agrediram sexualmente a mulher que ficou.
Ela ligou pra polícia assim que conseguiu. Os três foram presos numa rua próxima ao hotel.
Sano ficou detido por quinze dias. Sua equipe jurídica negociou um acordo financeiro com a mulher. Os promotores de Tóquio decidiram não seguir com o caso e o motivo não foi divulgado. Ao ser liberado, Sano emitiu um comunicado por meio de sua agência: “Ofereço minhas sinceras desculpas à vítima pelas minhas ações que causaram grande problema.” O texto pedia desculpas à comunidade do futebol. Em nenhum momento mencionava se ele havia ou não cometido agressão sexual.
A Federação Japonesa de Futebol classificou o que aconteceu como “um erro pessoal” e o reconvocou em 2025.
Um erro pessoal. Uma mulher precisou ligar pra polícia de madrugada. Três homens foram presos. E a federação do país chamou isso de erro pessoal, o mesmo tipo de linguagem que usam quando um jogador fura toque de recolher.
Na Copa de 2026, Sano marcou gol contra o Brasil. No México, uma jornalista publicou a foto dele com um alerta pra mulheres mexicanas. O post foi visto mais de oito milhões de vezes. Em álbuns de figurinhas, torcedores riscaram o rosto dele com caneta preta.
A mulher que ligou pra polícia naquela madrugada recebeu uma compensação financeira e desapareceu do noticiário. Sano recebeu uma convocação pra Copa do Mundo.
Ito

Junya Ito, ala da seleção japonesa, foi acusado por duas mulheres de agressão sexual num hotel em Osaka, em junho de 2023. As acusações vieram a público durante a Copa da Ásia de 2024, quando a imprensa japonesa publicou os relatos das mulheres. A Federação Japonesa retirou Ito da competição na hora porque queria proteger a equipe do que chamou de “ruído” e “garantir um ambiente onde os jogadores pudessem se concentrar no futebol“. A dor de duas mulheres reduzida a ruído que atrapalha a concentração.
Os promotores japoneses investigaram e arquivaram o caso por falta de provas. Isso precisa ficar claro: arquivar por falta de provas não é inocentar. Significa que as provas reunidas não foram suficientes pra sustentar uma acusação formal. Não significa que o fato não aconteceu. Significa que não foi possível prová-lo dentro dos critérios que a justiça exige. A diferença entre “ele é inocente” e “não conseguimos provar” é um abismo, mas a mídia e as torcidas tratam como se fosse a mesma coisa. Não é.
A advogada de uma das mulheres chamou a decisão publicamente de “extremamente injusta”.
E então veio a parte que resume tudo que há de errado nesse sistema: Ito processou as duas mulheres por difamação. Pediu 200 milhões de ienes em indenização alegando que as acusações destruíram contratos de patrocínio e prejudicaram sua carreira. O advogado dele disse à imprensa que “é extremamente importante restaurar a honra dele o mais rápido possível, já que a carreira de um jogador é curta”. O processo contra as mulheres segue em andamento até hoje, sem decisão final divulgada.
A carreira dele é curta. A dor delas, aparentemente, não tem prazo.
Ito voltou à seleção japonesa e está jogando a Copa de 2026. Ele nega todas as acusações originais.
Duas mulheres denunciaram. A justiça arquivou. O jogador processou as mulheres que o acusaram, pedindo um milhão de euros. E voltou a jogar pela seleção. Se alguém ainda se pergunta por que tantas mulheres não denunciam, esse caso é a resposta mais completa que existe.
O argumento da fama
Toda vez que uma mulher acusa um homem famoso, a primeira linha de defesa é sempre a mesma: ela quer holofote.
Mas nenhuma dessas mulheres tem rosto público. A que acusou Hakimi pediu anonimato desde o primeiro dia e não queria nem registrar queixa, só deixar constado. As quatro que acusaram Partey vivem sob proteção de identidade permanente. A que denunciou Sano aceitou um acordo e sumiu da mídia. A que acusou Ito não ganhou nada, ganhou um processo.
Enquanto isso, cada um desses jogadores tem à disposição uma federação, um clube, patrocinadores, assessoria de imprensa e advogados internacionais. As mulheres que os acusaram têm um registro policial e a esperança de que alguém acredite no que elas disseram.
O que já aconteceu no Brasil
Antes de pensar que isso é um problema distante, de outros países e outros jogadores, lembra do que já aconteceu aqui.
O caso mais brutal é o do goleiro Bruno. Eliza Samudio tinha 25 anos. Engravidou dele. Pediu que ele reconhecesse a paternidade. Em 2009, antes de desaparecer, Eliza registrou queixa na polícia dizendo que Bruno e amigos a mantiveram em cárcere privado e a forçaram a tomar substâncias abortivas. Uma juíza negou o pedido de proteção argumentando que Eliza não tinha “relacionamento íntimo” com o goleiro apenas uma “relação eventual e sexual” e que conceder a medida seria “banalizar a finalidade da Lei Maria da Penha”.
Eliza desapareceu em junho de 2010. Nunca mais foi vista. O corpo nunca foi encontrado. O filho dos dois, Bruninho, tinha quatro meses.
Bruno foi condenado a 22 anos de prisão por homicídio triplamente qualificado, sequestro e ocultação de cadáver. E o que aconteceu depois da condenação deveria incomodar qualquer pessoa que se diz torcedora: clubes o contrataram. O Boa Esporte, de Varginha, colocou Bruno em campo em 2017 ele jogou cinco partidas. Rio Branco do Acre, Poços de Caldas, Atlético Carioca, Araguacema do Tocantins, Capixaba do Espírito Santo. Clube atrás de clube, todos sabendo exatamente quem ele era e o que ele fez. Quando um desistia por pressão popular, outro aparecia na semana seguinte. Em fevereiro de 2026, Bruno foi ao Maracanã assistir a um jogo do Flamengo e publicou vídeos emocionado nas redes sociais nas mesmas redes onde acumula mais de 250 mil seguidores.
Em março de 2026, a liberdade condicional de Bruno foi revogada porque ele viajou ao Acre sem autorização judicial pra jogar por mais um clube. Foi preso novamente em maio de 2026.
Eliza não tem túmulo e não tem corpo. E o homem condenado pela morte dela tem 250 mil seguidores e clubes que disputam quem vai colocá-lo em campo.
Robinho foi condenado pela justiça italiana a nove anos de prisão por participação em estupro coletivo. A condenação transitou em julgado. Existem áudios gravados nos quais ele próprio descreve o que aconteceu. E mesmo com áudios, ainda há quem o defenda.
Dani Alves foi condenado em primeira instância a quatro anos e meio de prisão por agressão sexual contra uma jovem no banheiro de uma boate em Barcelona. Em março de 2025, o Tribunal Superior de Justiça da Catalunha anulou a condenação, alegando insuficiência de provas e contradições na sentença. A decisão gerou protestos em Barcelona. A vice-primeira-ministra da Espanha, María Jesús Montero, chamou a absolvição de “um passo para trás” e disse que era “uma vergonha que o testemunho de uma vítima de estupro ainda estivesse sendo questionado”. A mulher que o acusou e o Ministério Público recorreram ao Tribunal Supremo. O caso segue em disputa.
Um homem condenado por matar uma mulher que foi aplaudido em estádios. Um homem condenado por estupro coletivo com áudios que o mundo inteiro ouviu. Um homem cuja condenação foi anulada enquanto a vítima recorre ao Supremo. E nos três casos, tem gente que defende, que aplaude, que veste a camisa.
Se é assim com quem já foi julgado, imagine a solidão de quem ainda está esperando julgamento.
Por que este texto existe
Eu escrevo ficção sobre o que acontece quando a voz de uma mulher é menor do que a voz de quem a silencia.
O que acontece com as mulheres deste texto não é ficção. É a versão real do que eu crio nos meus livros. Mulheres cujo relato pesa menos do que a carreira de quem elas acusam. Mulheres que a justiça ainda não ouviu porque o calendário esportivo não espera.
Eu não estou pedindo que você pare de torcer. Estou pedindo que, na próxima vez que gritar um nome num estádio ou na frente da televisão, você se pergunte se conhece a história inteira. Porque existe uma diferença entre torcer e idolatrar. Torcer é vibrar por um jogo. Idolatrar é decidir que alguém merece sua lealdade antes de saber o que essa pessoa fez quando ninguém estava filmando.
Torcer é um direito. Saber por quem você torce é uma escolha que diz mais sobre você do que sobre o jogador.
Nota da autora: Este artigo aborda investigações e processos judiciais amplamente divulgados pela imprensa internacional, incluindo France 24, ESPN, Sky Sports, Yahoo Sports, The Print e South China Morning Post. Todos os jogadores mencionados negam as acusações apresentadas contra eles. Nos casos ainda em andamento, não há condenação, e a presunção de inocência é um direito assegurado pela legislação de cada país. O objetivo deste texto é discutir o debate público sobre a convivência entre grandes eventos esportivos e denúncias de violência sexual envolvendo atletas de destaque, e não antecipar conclusões que cabem exclusivamente ao Poder Judiciário.
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
@jessyoliveira.oficial
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