Por Jessy Oliveira

O filme “Elize: Sombras de Uma Mulher” estreou na Netflix esta semana. O roteirista resumiu a proposta numa frase: “Prepare-se para ficar do lado de uma assassina.”
Eu não vou ficar.
E antes que alguém me acuse de falta de empatia, deixa eu explicar por que com os fatos que estão nos autos do processo, não com a narrativa que a Netflix decidiu vender.
Quem era Elize antes de Marcos
A história que circula nas redes é a de uma mulher humilde do interior do Paraná que encontrou um príncipe rico, casou, teve uma filha e foi traída e humilhada até o limite. Uma vítima que explodiu.
A história real é menos conveniente.
Elize conheceu Marcos Matsunaga trabalhando como acompanhante de luxo. Ele era casado. Ela sabia. O relacionamento dos dois começou como um caso extraconjugal. Marcos traindo a esposa com Elize, e Elize participando dessa traição com pleno conhecimento. Ele acabou se divorciando e casando com ela.
Isso importa. Não pra julgar o passado dela, cada um sobrevive como pode. Importa porque desmonta a narrativa da surpresa. Elize não descobriu, chocada, que o marido era o tipo de homem que trai. Ela sabia melhor do que ninguém. Ela foi a prova. O homem com quem ela casou trocou a esposa anterior por uma mulher mais nova que conheceu num programa. Elize entrou nesse casamento sabendo exatamente qual era o padrão, porque ela era o padrão.
Quando Marcos começou a sair com outra mulher, Elize não estava diante de uma revelação e sim de um espelho. A esposa descartada de hoje foi a amante vencedora de ontem e agora havia uma nova amante na fila, mais jovem, ocupando o lugar que um dia foi dela. O ciclo girou. Só que dessa vez, Elize estava do lado errado da troca.
E aqui está a leitura que a promotoria fez e que o juiz acolheu na decisão que mandou Elize a júri: ela não matou por amor ferido. Segundo a pronúncia, Elize agiu por motivo torpe, para se vingar da traição e evitar que a amante causasse a separação, com os prejuízos sociais e materiais que viriam junto e ainda de olho no seguro de vida e na administração dos bens que a filha herdaria.
Em outras palavras, essa foi a conclusão sustentada pela promotoria e acolhida na decisão de pronúncia: mais do que perder Marcos, Elize temia perder o padrão de vida que ele proporcionava.
As provas que a versão dela não explica
Tudo o que se sabe sobre agressão naquele casamento saiu de uma única boca: a de Elize.
Foi ela quem disse que levou um tapa. Foi ela quem relatou os xingamentos. Foi ela quem descreveu a ameaça de perder a filha. Nenhuma dessas alegações tem comprovação material nos autos. Elize não apresentou marcas no corpo. Não havia lesões documentadas, nem no rosto, nem em lugar nenhum. Não existe boletim de ocorrência anterior, não existe registro médico, não existe fotografia.
E não existe testemunha. Ao longo de todo o julgamento que durou sete dias e ouviu dezesseis testemunhas a defesa não conseguiu apresentar uma única pessoa que tivesse presenciado agressão, briga violenta ou comportamento abusivo de Marcos contra Elize. Nenhum vizinho. Nenhum funcionário. Nenhum parente. Ninguém.
A babá da casa que convivia com o casal diariamente descreveu Elize como generosa, mas não confirmou nenhum episódio de violência dele contra ela.
Isso não significa que a violência doméstica precise de plateia pra existir. Muitas mulheres apanham em silêncio, sem marcas visíveis, sem testemunhas. Eu sei disso e escrevo sobre isso. Mas há uma diferença entre reconhecer que abuso pode ser invisível e aceitar como fato provado a palavra de uma ré confessa que precisa dessa história pra reduzir a própria pena. A justiça não pôde confirmar as alegações dela. Nós também não podemos. O que sobrou foi a palavra de quem puxou o gatilho e a conveniência de que o único que poderia contestar está morto.
A serra, o tiro e o que o laudo diz
Dias antes do crime, durante uma viagem, Elize parou numa loja de ferramentas e comprou uma serra elétrica. A babá testemunhou isso no júri. A explicação de Elize: era pra abrir caixas de vinho.
Uma serra elétrica. Pra abrir caixas de vinho. Dias antes de o marido aparecer esquartejado.
A perícia não conseguiu confirmar se a serra foi usada e a defesa sustenta que o corpo foi desmembrado com uma faca de cozinha. Mas o detalhe da compra ficou nos autos, e a promotoria o usou pra sustentar a premeditação. O júri ouviu. E condenou por homicídio qualificado.
O laudo pericial trouxe outros dados que a narrativa romantizada prefere não mencionar. O perito que elaborou o laudo inicial apontou a possibilidade de que Marcos tenha começado a ser esquartejado ainda com vida, com asfixia respiratória por sangue aspirado. A decisão de pronúncia registrou também que o tiro foi disparado a curta distância, o que embasou a qualificadora de recurso que impossibilitou a defesa da vítima.
Leia de novo. A hipótese pericial nos autos é a de que ele pode ter estado vivo quando a lâmina começou.
É esse o caso que a internet transformou em história de empoderamento.
O comportamento que desmente a emoção
A defesa alegou que Elize agiu sob violenta emoção. Que foi um colapso, um surto, o transbordamento de uma mulher humilhada.
Só que a acusação sustentou e o júri acolheu que o comportamento de Elize depois do tiro era incompatível com a tese de um homicídio cometido sob violenta emoção. E quando você olha a sequência dos atos, entende por quê.
Elize, depois do tiro, esquartejou o corpo do marido em sete partes. Embalou cada parte em sacos de lixo. Distribuiu os sacos em malas. Carregou as malas até o carro. Dirigiu de madrugada até uma estrada em Cotia e espalhou os restos em pontos diferentes, numa mata onde o corpo foi encontrado dias depois, já devorado por cachorros e urubus. Voltou pra casa. Limpou tudo.
E então fez a parte que, pra mim, enterra de vez a tese da emoção: passou os dias seguintes interpretando a esposa aflita. Conviveu com a família de Marcos. Acompanhou a angústia dos parentes procurando por ele. Sustentou o papel de mulher preocupada com o desaparecimento do marido.
Esse comportamento: a frieza do desmembramento, a limpeza da cena, os dias de atuação diante da família. Foi um dos principais motivos pelos quais o júri rejeitou a tese da violenta emoção. Sete jurados olharam pra essa sequência e concluíram que ali não havia descontrole. Havia método.
O júri composto por quatro mulheres e três homens viu tudo isso. Rejeitou a legítima defesa. Rejeitou a violenta emoção. Condenou por homicídio qualificado e destruição e ocultação de cadáver. A pena, depois de reduzida pelo STJ pela confissão, ficou em dezesseis anos e três meses.
Quatro mulheres estavam naquele júri. Elas ouviram a versão de Elize da boca da própria Elize. E não compraram.
O público, que não viu um auto do processo, comprou.
A desculpa mais velha do mundo
“Eu fiz porque fui traído.” “Ela me humilhou.” “Agi no calor do momento.” “Eu amava demais.”
Essa é a frase de todo homem que mata uma mulher neste país. Está em cada inquérito de feminicídio, em cada júri, em cada entrevista de presídio. E a gente com toda razão não aceita. A gente responde: traição não justifica assassinato. Ciúme não é amor. Nenhuma emoção autoriza tirar uma vida.
Elize usou exatamente essa desculpa. Palavra por palavra. E metade das redes aplaudiu.
Não dá pra ter as duas coisas. Se traição justificasse matar, os feminicidas do Brasil inteiro estariam justificados, porque é essa a história que todos eles contam. Glorificar Elize é assinar embaixo da lógica que mata mulheres todos os dias. Só que com o gênero invertido, como se isso mudasse a natureza da coisa.
Não muda. Assassinato por posse não vira justiça quando quem atira é mulher. Vira o mesmo crime, com a mesma desculpa, esperando o mesmo aplauso.
As vítimas que ninguém lembra
No meio de toda essa comoção por Elize, duas pessoas sumiram da conversa.
A primeira é a mãe de Marcos. Uma mulher que perdeu o filho da forma mais brutal que uma mãe pode perder: baleado, esquartejado, encontrado em sacos de lixo na beira de uma estrada, comido por animais. Pode pintar Marcos como quiserem traidor, mulherengo, arrogante. Ele continuava sendo filho de alguém. E essa mãe assistiu a assassina do seu filho ganhar documentário, ganhar filme, ganhar liberdade condicional e ganhar uma torcida nas redes sociais. Ninguém fez filme sobre a dor dela.
A segunda é a filha. As redes cobram: “Elize tem direito de ver a filha”, “a família tirou a menina dela”. E eu pergunto o que ninguém pergunta: alguém quer saber o que a filha quer?
Essa criança cresceu sabendo que a mãe matou e esquartejou o pai com ela dentro de casa, dormindo no andar de cima. Será que ela quer essa convivência? Será que ela se sente segura? A discussão pública trata a menina como um direito de Elize, um objeto a ser devolvido, e não como uma pessoa que tem os próprios sentimentos sobre o que a mãe fez.
E sobre a guarda: os avós paternos criaram a neta. A internet acha um absurdo. Eu acho o mínimo. As cadeias deste país estão cheias de homens que mataram as mães dos próprios filhos e que juram que amam as crianças, que choram nas entrevistas, que inventam que a mulher traía, que provocava, que mereceu. Ninguém faz campanha pra esses homens verem os filhos. Ninguém acha que feminicida tem direito de visita. O que exatamente torna Elize diferente? Ser mulher? Ser mãe? Se a resposta é essa, então o que estamos dizendo é que assassinato tem atenuante de gênero. E não tem.
A única voz que sobrou
O documentário de 2021 se chama “Era Uma Vez um Crime”. O título já entrega o tom: era uma vez, como nos contos de fada. Quatro episódios construídos em volta da primeira entrevista de Elize a voz dela, o rosto dela, as lágrimas dela. Sem contraditório à altura. Sem os laudos na tela. Sem a família de Marcos com o mesmo espaço. Sem ninguém perguntando por que um júri com quatro mulheres rejeitou tudo o que ela estava contando ali.
E funcionou. A opinião pública sobre o caso foi moldada pelo relato de uma assassina condenada, apresentado anos depois, polido por advogados, embalado por uma edição que sabia exatamente que emoção provocar.
Agora vem a ficção terminar o serviço. Um filme desenhado, nas palavras de quem o escreveu, pra você ficar do lado dela.
Eu escrevo sobre vítimas. Este blog existe pra devolver voz a quem foi silenciado. E neste caso, o silenciado tem nome: Marcos Matsunaga. Ele não pode dar entrevista. Não pode chorar diante de uma câmera. Não pode contar a versão dele daquela noite. A voz dele foi apagada com um tiro a curta distância e tudo o que restou foi a palavra da pessoa que atirou.
Quando a única testemunha do crime é quem cometeu o crime, acreditar cegamente nessa testemunha não é empatia. É ingenuidade. E transformar essa testemunha em ícone é algo pior: é ensinar que basta matar bem, limpar direito e chorar bonito na câmera pra virar protagonista.
Elize Matsunaga cumpriu a pena que a justiça impôs. Tem direito à liberdade condicional, tem direito de recomeçar a vida. O que ela não tem direito é à minha admiração. Nem deveria ter à sua.
Nota da autora: As informações deste texto têm como base os autos do processo e a cobertura jornalística do julgamento, incluindo a decisão de pronúncia do Tribunal de Justiça de São Paulo, os depoimentos prestados em plenário e reportagens de veículos como Consultor Jurídico e TJSP. Elize Matsunaga foi condenada por homicídio qualificado e destruição e ocultação de cadáver, com sentença transitada em julgado, e obteve liberdade condicional em 2022. As alegações de agressão feitas por ela em sua defesa não foram acolhidas pelo júri e não possuem comprovação material nos autos, conforme apurado no julgamento.
Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.
@jessyoliveira.oficial
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