Quando a Bienal do Livro virou um evento sobre homens

Por Jessy Oliveira


A 28ª Bienal do Livro de São Paulo aconteceu entre 4 e 6 de setembro, no Anhembi. É o maior evento literário do Brasil e recebe centenas de milhares de pessoas.

Nenhum livro dominou as redes no fim de semana.

Quem dominou foi um homem fantasiado de Ghostface, o assassino mascarado da franquia Pânico, contratado pela editora Fruto Proibido para representar personagens de dark romance no estande.

A fila que se formou não era para comprar nada. Era para gravar vídeo com ele. Circularam imagens de mulheres encostadas contra a parede em pose sensual, mulheres fingindo ser enforcadas, mulheres se jogando no chão aos pés de um sujeito de máscara. Tudo isso dentro de uma feira de livros, num pavilhão onde também tinha estande infantil, autor de literatura juvenil e criança circulando com os pais.

Quarenta e oito horas depois o rosto de um deles apareceu nas redes.

Uma mulher relatou que foi chamada para gravar um vídeo durante o evento e que ele a prensou contra a parede para filmar. Na hora ela levou na brincadeira. Depois descobriu que ele mantinha grupo de WhatsApp com adolescentes que interagiam com a persona. Outras pessoas disseram tê-lo conhecido em um clube de leitura de dark romance no ano passado, com mensagens que descreveram como inadequadas. Apareceram publicações alegando interação de natureza sexual com menores.

A editora não falou nada até agora.

E teve uma coisa nessa história que me deixou pior do que todo o resto.


O que assustou as leitoras

Quando o rosto do mascarado vazou, boa parte da reação nas redes não foi sobre os relatos.

Foi sobre ele não ser bonito.

A decepção coletiva não teve nada a ver com adolescente em grupo de WhatsApp. Teve a ver com o fato de que a fantasia não resistiu à cara do sujeito. Mulheres que passaram o fim de semana inteiro gravando conteúdo sensual com um estranho mascarado descobriram que se importavam menos com quem ele era do que com o quanto ele servia de tela em branco.

Isso diz muito mais sobre onde a gente chegou do que qualquer análise que eu possa fazer sobre o mercado editorial.


Onde está o mal

Vou explicar exatamente o que me incomoda, porque não é o que a maioria está discutindo.

Um livro sobre serial killer pode entrar na cabeça do assassino, humanizar, dar contexto, mostrar infância. Ninguém termina achando que aquilo é um modelo de vida. O mal está identificado. Você fecha o livro sabendo que acompanhou um monstro.

Terror funciona igual. O mal existe para assustar e o medo é a resposta correta.

Em suspense você passa o livro inteiro procurando de onde vem o perigo, e o alívio chega quando descobre.

O dark romance faz outra coisa. Ali o mal vira o par romântico.

O cara que invade a casa, que persegue, que sequestra, que ameaça de morte quem chega perto dela, esse cara não é o vilão do livro. Ele é o objeto de desejo. A protagonista resiste um pouco no começo, depois entende que aquilo era amor o tempo todo, e a leitora é levada junto nessa conversão.

Em nenhum momento a narrativa sinaliza que aquilo é errado. Nenhuma página avisa. O livro inteiro foi construído para que você deseje esse homem.

Agora pensa no que isso faz com quem ainda está formando a ideia do que é um relacionamento.


Quem está lendo

Os livros trazem aviso de dezoito anos. Está lá na sinopse, na descrição, às vezes na capa.

Só que o BookTok brasileiro é adolescente. As resenhas que viralizam são de meninas de catorze, quinze anos. Nas filas de feira literária tem gente que saiu da escola direto para lá.

Muitas delas ainda não tiveram nenhum relacionamento. Estão montando a referência do que é amor com base no que leem, e o que leem diz que ciúme é prova de afeto e que controle é uma forma de cuidado.

Quando essa menina começar a namorar e o cara mexer no celular dela, gritar com ela, afastar ela das amigas, quanto tempo ela vai levar para entender o que está acontecendo? Ela já viu isso antes. Já achou bonito.

O caso da Bienal mostra o degrau seguinte. Um adulto que se fantasia de personagem e encontra um público já treinado para achar aquele comportamento desejável. Ele testou até onde dava para ir, viu que dava para ir longe, e foi.


O aviso que falta

Não quero livro proibido. Escrevo ficção sombria, sobre feminicídio, sobre violência contra mulher, e seria a primeira a ser silenciada se esse fosse o caminho.

Mas aviso de faixa etária não resolve nada.

Se existe aviso para conteúdo sexual e para gatilho, deveria existir uma nota dizendo que aquele comportamento não é para ser idealizado. Que na vida real esse homem não é romântico. Que perseguir, controlar e ameaçar não vira amor no capítulo trinta.

Parece bobagem. Não é. Uma linha basta para quebrar a fantasia no ponto certo e lembrar quem está lendo de que aquilo funciona ali dentro e só ali.

Escrever sobre uma relação abusiva é legítimo. Eu faço isso. O que muda tudo é o que o livro faz com essa relação, se ele mostra o estrago ou se ele vende o agressor como prêmio.

E editora que contrata mascarado para encenar assédio em feira aberta ao público não está divulgando obra nenhuma. Está vendendo a fantasia solta, para quem estiver na fila, sem perguntar idade de ninguém.


O país onde isso acontece

O Brasil mata mulher todo dia. Boa parte por ex-companheiro que não aceitou o fim, que dizia amar demais, que não suportou ser deixado.

E o mercado editorial está vendendo exatamente esse sujeito como o homem dos sonhos.

Livro não causa feminicídio, e quem tentar me atribuir isso está sendo desonesto. O que existe é uma cultura sendo construída aos poucos, sobre o que mulher deve esperar de um homem e sobre o que homem entende que mulher quer. Isso tem consequência. Não amanhã, não de forma direta, mas tem.


O que eu penso

Ninguém precisa parar de ler dark romance e ninguém deve satisfação sobre o que consome.

O problema é a venda daqueles homens como ideal.

É pegar o agressor, embrulhar como fantasia recomendável, distribuir para meninas que ainda não sabem como funciona um relacionamento saudável, e depois estranhar quando um cara de máscara percebe que existe uma plateia inteira já preparada.

A Bienal deveria ser o lugar onde a gente discute o que está sendo escrito neste país.

Este ano ela produziu fila para foto com homem mascarado, e a maior indignação que sobrou foi descobrir que ele era feio.


Jessy Oliveira é autora de A Última Geração e A Voz das Vítimas. Seus livros estão disponíveis na Amazon.

@jessyoliveira.oficial

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